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R.U.A: Rede Universal Aberta, a rede social do meu tempo.

Quando a vida passa a não ser mais vivida na sua realidade ampla e a convivência passa a ser uma opção, devemos mesmo nos questionar sobre se somos somente seres virtuais ou sobre se queremos que nossos filhos sejam apenas endereços WEB.


Essa semana andava displicente pela rua em que moro, era por volta de 15 horas, quando dei por mim de que não havia uma única viva alma em toda a extensão daquele logradouro... os tempos mudaram... mais do que isso, não havia uma criança sequer: nem pulando corda, nem soltando pipa, nem jogando búlica ou brincando de carniça ou de um dos diversos piques que tão bem conhecíamos... inúmeros: bandeira, tá, pega, esconde e por aí vai. Não havia uma criança sequer brincando de elástico ou simulando um polícia e ladrão. As crianças de hoje em dia sequer sabem do que se tratam essas brincadeiras, sequer imaginam qual a graça de se conviver em conjunto... de brigarem entre si, por vezes, até fisicamente... como eu brigava com os meus amigos. Essas crianças não sabem a graça que existia em assistir Jiraia, Changeman, Jaspion, ou sejam lá quais fossem os heróis japoneses e os efeitos toscos das ridículas produções derivadas, e depois vir às ruas, brincar de ser esses heróis com menos efeitos especiais e muito mais empolgação, eventualmente, até com mais talento que os atores originais, afinal o Japão nunca foi lá grande coisa no cenário cinematográfico.


Pois bem, as redes sociais modernas estão destruindo gerações, fazendo com que as crianças de hoje em dia sejam adultas em suas relações interpessoais. Hoje em dia, até o Bullying é via WEB, realidade burlesca que nos transforma em seres semicibernéticos extravagantes e enfadonhos, com características cada vez mais robóticas que levamos para a vida em comunidade, nos tornando pessoas sem sentido literal. Nunca mais ouvi falar de festas americanas, aquelas em que cada um levava uma coisa e fazíamos a festa na casa emprestada de algum coleguinha, quase sempre à revelia da mãe. Agora só se fala em rolezinho entre estranhos que são cada vez mais estranhos, mas que marcam via WEB o seu “point”, em sentido muito estrito, sem local claramente definido.

Eu queria muito voltar no tempo.

Lembro com singeleza de ter me fascinado pelo incrível Menino no Espelho, livro infantil clássico do excelente Fernando Sabino. Ao fim do livro, após contar todas as suas reais peripécias de criança, depois de enfeitar muito o pavão da sua vida de menino, ele dizia que se um dia o perguntassem de novo sobre o que ele gostaria de ser quando crescesse, ele diria: “quero ser criança!”. Essa frase simples e de uma poesia ímpar que fazia alusão crítica ao menino que queria se tornar homem mais rapidamente, muito típico do nosso tempo, me marcou tanto que agora, anos e anos depois, ainda lembro dela com enorme nostalgia e fascinante saudade daqueles idos, idos que já não eram os tempos tão lúdicos quanto os do Fernando, mas que ainda eram tempos bons, em que ainda não tínhamos a desgraça da Internet para destruir a infância e nos fazer adultos aos 7 anos, sem nunca termos brincado de nada.


Agora, sério: não há graça qualquer em ser adulto. Ser adulto só nos toma tempo e responsabilidade, nos faz pessoas mecanizadas e infelizes quase sempre, com trabalhos que quase nunca escolhemos e pessoas sem qualquer graça inseridas nas nossas vidas. Raros são os de nós que amam o que fazem e fazem o que amam, e desses, ainda há os que não se deram conta disso: os Neymares da vida, por assim dizer!

Efetivamente, a rua era uma rede social muito mais movimentada, com muito menos gente e menos variedade, mas que essencialmente nos fazia homens pela prática, quase sempre de bem. O Facebook só nos mostra o que não presta. Aquele acesso restrito ao mundo que nossos pais nos davam, aquela passagem para frequentar os bailes de adolescência, as dificuldades práticas da vida infantil que evolui e desemboca na puberdade, essas viraram dificuldades puramente teóricas no mundo moderno. De certo que o Facebook as desconhece, são questões humanas e afetivas que precisaríamos viver, mas que para máquinas são definitivamente ininteligíveis. A "passagem de nível" da infância para a vida adulta sequer tem passado pela adolescência. Nossos filhos, cada vez mais, se tornam homens sem nem terem pêlos pubianos ainda.

Mas há saída pra tudo isso!?

Receio mesmo que não... O mundo a cada dia se torna mais informatizado e sensivelmente interligado. Dentro de alguns anos poderemos ser amigos de pessoas no Japão, só que a esse tempo já interagindo com elas como se fisicamente estivéssemos juntos. Hoje já podemos interagir de modo frio e muito restrito ao aspecto visual, mas o futuro nos reserva experiências estupendas com relação aos avanços dos tentáculos da internet, das redes sociais. Não nos espantemos se for criada uma forma de Androides simularem pessoas interagindo com a gente via sensores eletrônicos ativados pela WEB e que, mesmo com idiomas diferentes, possam traduzir a conversa com precisão para ambos os lados.


OK, mas então como lidar com tudo isso?

Bem, Você talvez nunca tenha se dado conta, mas o Mark Zuckerberg sabe mais da sua vida que você mesmo! É uma realidade. Você pensa em coisas e como num passe de mágica elas aparecem sendo ofertadas nos anúncios das páginas em que você navega, quase que despretensiosamente.

Imagina se teríamos isso na rua!

A conclusão que levo disso tudo é que na Rede Universal Aberta (RUA), vivemos todos os tipos de experiências de forma muito mais fechada a um grupo mínimo de pessoas, que nem sempre são nossos amigos e que não estão ali, definitivamente, para nos “curtir”, o que significa que é uma rede social em que estamos expostos cruelmente à crítica e ao aspecto desabonador das nossas voláteis condutas. Como queremos ser amados em medida extrema, os “likes” e as interações das redes sociais são como água no deserto: irresistíveis.

Por outro lado, senso comum relevante nos leva a crer que as brincadeiras que tão bem nos faziam quando éramos crianças, não fazem falta aos nossos filhos, mas eles estão ficando cada vez mais gordos e cada vez mais cedo e insistentemente mais doentes, cada vez mais frágeis psicologicamente, já que se escondem na máscara sedutora do protocolo TCP/IP, mais expostos ao lado obscuro do mundo, já que esse se aproxima sem a destreza que era necessária quando éramos seres físicos, de contatos individuais.

Definitivamente, não fizemos bom negócio oferecendo acessibilidade irrestrita ao admirável mundo novo! E portanto, precisamos de gente que refaça essas ligações entre a idade e a vida compatível com a idade, entre o físico e o táctil, entre o real e nós.


Precisamos resgatar a Rede Universal Aberta (RUA), com as suas imensas limitações de inscritos, mas com a sua amplidão espacial e sua variedade fundamental de atividades, com a sua inesgotável interação táctil que nos faz humanos de novo, não mais os semiandroides atuais, sedentos apenas por tecnologia de ponta e frieza relacional em mundos paralelos onde fazemos sexo com as mãos e amamos as imagens das pessoas que não mais sabemos quem são (amor virtual), ou seremos dentro de alguns anos, gerações de vivos que não viveram, que não têm condições emocionais de realizar a vida real.

Seremos endereços WEB, não teremos mais RUA!